De boina, com um lencinho vermelho amarrado no
pescoço e camiseta apertada, o rapaz ajoelha-se até ficar de quatro, com expressão de
profundo sofrimento. Em pé, diante dele: um homem de terno descombinado e uma mulher de
saia longa até o tornozelo, cada um segurando um livro. A mulher tenta dissuadí-lo do
contrário, mas o homem em pé aos brados de "esse daí não tem jeito!", sai do
salão com ela. Surge uma jovem, de jeans. Se aproxima carinhosamente,
senta-se ao lado do sofredor e lê a bíblia para ele. A partir daí, o
personagem vai mudando de postura e de roupa: abandona o lencinho, depois a boina, e,
finalmente, troca a camiseta cavada por uma pólo (faz isso de costas para a platéia).
Ela continua lendo a bíblia. Os gestos do personagem vão mudando, adquirindo postura
mais máscula. Até que passa a mão pelo ombro dela e, por fim, a beija.
Na verdade este não é um trecho de
uma peça de teatro e muito menos uma anedota da mal gosto, é nada menos do que uma
amostra do que a Igreja Batista está tentando promover: a conversão através
do tratamento de "cura"
da homossexualidade. A dramatização é um dos passos da técnica
de lavagem cerebral. O GLS Planet vem investigando há alguns meses a atuação dos programas de
"cura" homo e, a partir de agora, você fica com o relato de um de nossso
repórteres infiltrados no último evento:
- Eu estava trabalhando como repórter infiltrado para o GLS Planet, por isso não iria me deixar convencer por
argumentos pobres, mas acredito hoje que era o único cético da platéia de cerca de
duzentas pessoas que acompanharam o III Seminário Batistas do Sul sobre
Homossexualidade, que aconteceu neste sábado, no Rio de Janeiro, organizado
pelo Movimento pela Sexualidade Sadia (MOSES) e pelo Grupo de Amigos (G.
A.), o qual eu já frequentava há mais de um mês. Os palestrantes idolatram os
batistas homofóbicos do sul dos EUA. São os batistas os responsáveis por inúmeras iniciativas no sentido de diminuir ou
acabar com as conquistas dos direitos dos homossexuais e esta iniciativa atinge seu
ponto máximo na organização Exodus
Internacional. Aquela mesma, da qual o presidente e ex-ex-gay John
Paulk ("curado" há 8 anos) foi demitido, após ser visto em um
bar gay recentemente...
Eles não só são contra o casamento
entre pessoas de mesmo sexo mas também contra leis anti-discriminação em
estabelecimentos comerciais preconceituosos. Na Romênia,
que já é um país atrasado nessa questão, os Batistas estão pressionando o
Congresso para manter o código penal que prevê multa e prisão para os homossexuais.
Cheguei lá às 8 e meia da manhã, paguei 35 reais pela entrada para o céu, peguei
a apostila
(uma pastinha com uns panfletos dentro) e entrei na igreja. Logo começou a tocar uma
banda de música, com o repertório de... música evangélica! A platéia bem
misturada com jovens, algumas beatas, pastores... Eu me perguntava: que tipo de
pessoa procura esse recurso? A minha visão era que somente gays e lésbicas que
não têm acesso à informação, cairiam no conto da cura-homo, mas a surpresa
foi encontrar vestibulandos, médicos, designers, todo tipo de gente...
Depois da música, ou melhor do relaxamento,
a primieira das técnicas utilizadas em lavagem cerebral, veio a primeira palestra
do dia. Discursou o pastor João Luiz Santolin, do grupo MOSES.
O religioso evangélico desfiou um rosário de acusações contra os gays, principalmente
os ativistas, chegando a fazer piada de Luiz Mott, presidente do Grupo
Gay da Bahia. Todos os seus argumentos contra o que ele chama de "homossexualismo"
eram baseados no Velho Testamento da Bíblia cristã. Ele chega a citar algumas
passagens bíblicas para ilustrar sua tese. O tema não é novo para gays, como
lembra Johnny Ferreira, de 21 anos, ativista gay e membro do CAEHUSP
(Centro Acadêmico de Estudos Homoeróticos da Universidade de São Paulo):
"É ridículo. Chego a achar que é uma ação nazi-fascista. Ninguém
pediria a um negro que mudasse de cor para entrar na igreja. Por quê mudar de
orientação afetivo-sexual? O maior pecado seria não amar ao próximo, mas isso o gay
faz. Quanto à Bíblia, pode-se fazer várias leituras. É de cada um. Depende da
interpretação de quem lê", diz.
Com ironias, o pastor ainda chegou a alertar (!) a platéia do perigo que
representa a Marta Suplicy, candidata a prefeitura de São Paulo,
por defender a união civil entre
pessoas do mesmo sexo. Segundo ele, o perigo reside no fato de a Holanda ter começado sua
liberalidade com a união civil, e hoje está estendendo esses direitos com o casamento
homossexual, com direito a adoção, inclusive. Ele tem medo de chegar o dia em que será
preso ou multado quem se recusar a casar dois homossexuais no religioso, acusado de
preconceito.
O segundo a discursar foi o pastor/psicólogo Julio
César Cardoso Maia. E você indaga: Como conciliar duas funções tão
comprometedoras? E a ética? Se ele seria mesmo psicólogo estaria no mínimo infringindo
a medida de autoria da Dra. Ana Bock, presidente do Conselho Regional de
Psicologia, de maio de 2000, que proíbe o tratamento de homossexualidade como
doença.
Entre as coisas que o evangélico falou, a frase: "a homossexualidade não é
orientação, é opção". Foi o que perguntamos ao psicólogo e psicanalista Luiz
Frederico Nogueira (foto) que refutou: "Não é bem assim. Somos
escolhidos pela nossa sexualidade, não escolhemos. O ser humano não é como o
animal, que tem o código genético ditando o comportamento pelo instinto. O ser humano
tem que aprender tudo pela cultura".
Como se não bastasse as inverdades psicológicas, o pastor ainda utiliza de incutir
culpa, ou negação ( parte da técnica de lavagem cerebral)
na cabeça dos homossexuais da sala com ameaças de inferno.
Para aumentar o clima de fanatismo, a repetição (também faz
parte da técnica utilizada em lavagem cerebral) de três em três minutos o pastor/psi
perguntava com os olhos esbugalhados: "Amém?!?", para todos responderem
"amém!". Detalhe sobre este palestrante: assim como o anterior, este também
tinha já "se convertido" (leia-se, "deixado de ser gay"), mas devo
confessar que seu blazer roxo estava um ar-ra-so!
(Através de contato telefônico com
o Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro, não foi encontrado registro
do psicólogo Júlio Cesar Cardoso Maia)
Continuação>>
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