Barra de Navegação

especial.gif (2082 bytes)   Curar o que não é doença?

Investigação - A terapia de "cura" homo, fomentada por grupos religiosos no Brasil

24/10/00 GLSPLANET.COM

BUSCA no Portal

Outros artigos

Se já é pecado ser gay, mais ainda sair do armário para conquistar direitosDe boina, com um lencinho vermelho amarrado no pescoço e camiseta apertada, o rapaz ajoelha-se até ficar de quatro, com expressão de profundo sofrimento. Em pé, diante dele: um homem de terno descombinado e uma mulher de saia longa até o tornozelo, cada um segurando um livro. A mulher tenta dissuadí-lo do contrário, mas o homem em pé aos brados de "esse daí não tem jeito!", sai do salão com ela. Surge uma  jovem, de jeans. Se aproxima carinhosamente, senta-se ao lado do sofredor e lê a bíblia para ele. A partir daí, o  personagem vai mudando de postura e de roupa: abandona o lencinho, depois a boina, e, finalmente, troca a camiseta cavada por uma pólo (faz isso de costas para a platéia). Ela continua lendo a bíblia. Os gestos do personagem vão mudando, adquirindo postura mais máscula. Até que passa a mão pelo ombro dela e, por fim, a beija.

Na verdade este não é um trecho de uma peça de teatro e muito menos uma anedota da mal gosto, é nada menos do que uma amostra do que a Igreja Batista está tentando promover:  a  conversão através do tratamento de "cura"   da homossexualidade. A dramatização é um dos passos da técnica de lavagem cerebral. O GLS Planet vem investigando há alguns meses a atuação dos programas de "cura" homo e, a partir de agora, você fica com o relato de um de nossso repórteres infiltrados no último evento:

- Eu estava trabalhando como repórter infiltrado para o
GLS Planet, por isso não iria me deixar convencer por argumentos pobres, mas acredito hoje que era o único cético da platéia de cerca de duzentas pessoas que acompanharam o III Seminário Batistas do Sul sobre Homossexualidade, que aconteceu neste sábado, no Rio de Janeiro, organizado pelo Movimento pela Sexualidade Sadia (MOSES) e pelo Grupo de Amigos (G. A.), o qual eu já frequentava há mais de um mês. Os palestrantes idolatram os  batistas homofóbicos do sul dos EUA. São os batistas os responsáveis por inúmeras iniciativas no sentido de diminuir ou acabar com as conquistas dos direitos dos homossexuais  e esta iniciativa atinge seu ponto máximo na organização  Exodus Internacional. Aquela mesma, da qual o presidente e ex-ex-gay John Paulk ("curado" há 8 anos) foi demitido, após ser visto em um bar gay recentemente...

Eles não só são contra o casamento entre pessoas de mesmo sexo mas também contra leis anti-discriminação em  estabelecimentos comerciais preconceituosos. Na Romênia, que já é um país atrasado nessa questão,  os Batistas estão pressionando o Congresso para manter o código penal que prevê multa e prisão para os homossexuais.

Cheguei lá às 8 e meia da manhã, paguei 35 reais pela entrada para o céu,  peguei a apostila
(uma pastinha com uns panfletos dentro) e entrei na igreja. Logo começou a tocar uma banda de música, com o repertório de... música evangélica! A platéia  bem misturada com jovens, algumas beatas, pastores... Eu me perguntava: que tipo de pessoa procura esse recurso? A minha visão era que somente gays e lésbicas que não têm acesso à informação, cairiam no conto da cura-homo, mas a surpresa foi encontrar vestibulandos, médicos, designers, todo tipo de gente...

Depois da música, ou melhor do relaxamento, a primieira das técnicas utilizadas em lavagem cerebral,  veio a primeira palestra do dia. Discursou o pastor João Luiz Santolin, do grupo MOSES. O religioso evangélico desfiou um rosário de acusações contra os gays, principalmente os ativistas, chegando a fazer piada de Luiz Mott, presidente do Grupo Gay da Bahia. Todos os seus argumentos contra o que ele chama de "homossexualismo"  eram baseados no Velho Testamento da Bíblia cristã. Ele chega a citar algumas passagens bíblicas para ilustrar sua tese. O tema não é novo para gays, como lembra Johnny Ferreira, de 21 anos, ativista gay e membro do CAEHUSP (Centro Acadêmico de Estudos Homoeróticos da Universidade de São Paulo): "É ridículo. Chego a achar que é uma ação nazi-fascista. Ninguém pediria a um negro que mudasse de cor para entrar na igreja. Por quê mudar de orientação afetivo-sexual? O maior pecado seria não amar ao próximo, mas isso o gay faz. Quanto à Bíblia, pode-se fazer várias leituras. É de cada um. Depende da interpretação de quem lê", diz.

Com ironias, o pastor ainda chegou a alertar (!) a platéia do perigo que representa a Marta Suplicy, candidata a prefeitura de São Paulo, por defender a união civil entre pessoas do mesmo sexo. Segundo ele, o perigo reside no fato de a Holanda ter começado sua liberalidade com a união civil, e hoje está estendendo esses direitos com o casamento homossexual, com direito a adoção, inclusive. Ele tem medo de chegar o dia em que será preso ou multado quem se recusar a casar dois homossexuais no religioso, acusado de preconceito.

Luiz Frederico Nogueira
O segundo a discursar foi o pastor/psicólogo Julio César Cardoso Maia. E você indaga: Como conciliar duas funções tão comprometedoras? E a ética? Se ele seria mesmo psicólogo estaria no mínimo infringindo a medida de autoria da Dra. Ana Bock, presidente do Conselho Regional de Psicologia, de maio de 2000,  que proíbe o tratamento de homossexualidade como doença. 
Entre as coisas que o evangélico falou, a frase: "a homossexualidade não é orientação, é opção". Foi o que perguntamos ao psicólogo e psicanalista Luiz Frederico Nogueira (foto) que refutou: "Não é bem assim. Somos escolhidos pela nossa sexualidade, não escolhemos. O ser humano não é como o animal, que tem o código genético ditando o comportamento pelo instinto. O ser humano tem que aprender tudo pela cultura".
Como se não bastasse as inverdades psicológicas, o pastor ainda utiliza de incutir culpa, ou negação ( parte da técnica de lavagem cerebral)   na cabeça dos homossexuais da sala com ameaças de inferno.


Para aumentar o clima de fanatismo, a  repetição (também faz parte da técnica utilizada em lavagem cerebral) de três em três minutos o pastor/psi perguntava com os olhos esbugalhados: "Amém?!?", para todos responderem "amém!". Detalhe sobre este palestrante: assim como o anterior, este também tinha já "se convertido" (leia-se, "deixado de ser gay"), mas devo confessar que seu blazer roxo estava um ar-ra-so!

(Através de contato telefônico com o Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro, não foi encontrado registro do psicólogo Júlio Cesar Cardoso Maia)

Continuação>>

E você?
Fique tranquilo, seu nome e mail não serão divulgados... Após o preenchimento, você vai voltar a esta página

Idade:
Orientação sexual:

Você seria o tipo de pessoa capaz de cair no conto desses religiosos?SimNão

Por quê?

Nome   Email   


        Jornalista responsável: Anna Braga - Mtb 17.709
           ©2000 GLS PLANET - Todos os direitos reservados
         Realização: DUAL Mídia e Comunicação

DUAL Mídia e Comunicação